acho que podem contribuir para que, a partir desse estopim que estão sendo as ocupações mundiais, a sociedade civil se organize, volte a se constiuir enquanto comunidade, e vá aumentando seus espaços de crescimento, convivência e ação.

Por Juliana Fajardini, em 01/11/2011

Ontem fui passar minha primeira noite no acampamento do Ocupa daqui de Salvador.

Cheguei lá por volta das nove e meia da noite e fui recebida com alegria, pois normalmente fica pouca gente para dormir. Pouco depois, começou uma conversa entre os que já estavam acampados e outros que foram se achegando, envolvendo a questão da negação completa aos partidos e a outras formas de organização ou a não inclusão das iniciativas de micropolítica no movimento.
Como havia muitas pessoas com históricos diferentes, este início rapidamente virou uma roda empolgada, conversando sobre história da política do Brasil, entendimentos sobre Anarquia, anseios em relação ao movimento e propostas de caminhos práticos a serem seguidos, além de avaliações e sugestões do que poderia ser feito caso e quando deixarmos de estar acampando, mas para continuar nos mobilizando.

Essa conversa toda foi muito bacana e plural, e tive algumas ideias de coisas interessantes que podem ser feitas, e que acho que podem contribuir para que, a partir desse estopim que estão sendo as ocupações mundiais, a sociedade civil se organize, volte a se constiuir enquanto comunidade, e vá aumentando seus espaços de crescimento, convivência e ação.

Depois chegou um cara que não tinha noção alguma do que estava acontecendo no mundo, mas que já não aguenta ver as crianças sofrendo e morando na rua, e foi mais um tempão de conversa e compartilhamento de visões de mundo diferentes.

Essas conversas (que foram até quase quatro da manhã), mais a experiência de ficar por lá, falar com quem chegava querendo saber algo, acompanhar mais a dinâmica do acampamento e da praça em si foram uma escola intensiva, pra mim.

Inicialmente fiquei com receio de dormir na barraca, mas eles estão se revezando, fica sempre pelo menos uma pessoa acordada, e a barraca fica aberta, então não tem risco de acontecerem coisas estranhas porque “você está dividindo o espaço com estranhos”.

Hoje pela manhã tive a oportunidade de conhecer o famoso congolês que também está lá no acampamento. Outra experiência única.

Precisamos de mais espaços para estar em contato com as pessoas, e simplesmente ouvi-las. Isso já é um nível de cuidado e de existência social que praticamente perdemos hoje em dia. Partilhar tarefas simples, abrir-se para falar com um desconhecido ou comer junto o que se tem porque se está com fome foram coisas simples que aconteceram por lá e que me relembraram da importância de conviver com as pessoas para lembrar que elas são isso: pessoas, como eu.

A sensação de que aquele estava sendo um espaço de realização de sincronicidades foi forte, naquela noite. Senti que estávamos de algum modo tendo uma experiência única, e estou tentando de algum modo passar isso com essa mensagem. Eu não sei para onde iremos, nem quais serão os desdobramentos concretos mais imediatos do que estamos fazendo lá, e no mundo. Mas vejo que, simplesmente por nos abrirmos para essa potencialidade, e por resistirmos em conjunto para o que der e vier, já vai nos mudar de modos que nem conseguimos entender hoje.

Recomendo. Aqui, no Rio Grande do Sul, onde for possível.

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