Escrevo a partir da perspectiva de um participante do movimento Ocupa Salvador que, junto a um grupo relativamente pequeno mas intenso, renomeou a praça nova de Ondina para “Praça dos indignados”, resgatando uma das funções legítimas das praças públicas como locais de interação e convívio aberto, função que tem sido solapada sistematicamente por modelos hegemônicos globais de organização social, política e econômica que refletem e determinam os contextos locais de nossas ruas e cidades e de nossas vidas.

O movimento @ocupaSalvador é livre, apartidário, político, social e cultural!

Mas o que estamos fazendo para contestar tais modelos? Que métodos de ação política os movimentos “Ocupa” estão buscando para realizar, ainda que através de processos lentos e graduais, as transformações radicais que norteiam nossos anseios?

Se os movimentos “Ocupa” são acusados de não terem um “projeto político” claro e, precipitadamente, acusados de não alcançarem graus efetivos de interferência e determinação política, pelo menos numa coisa tais movimentos alcançam um grau de maturidade raro nas esferas políticas convencionais: eles começam a se articular globalmente através das redes, porque sabem que a solução política será internacional ou não será nada, que a solução econômica deve mirar antes de tudo os meios de produção internacionais, e que as macrodecisões sobre investimentos sociais públicos devem ser tomadas com a participação das pessoas comuns. Qualquer conversa diferente desse contexto é mero discurso viciado e interessado.

Tais perspectivas são utópicas na opinião de alguns, mas para todos os que se negam a participar de um estilo de vida degradante espiritual, ambiental e economicamente, as acampadas são processos mais claros de vivência e também conceitualmente mais simples. Para os deslocados das perspectivas de esperança de mudanças reais dos paradigmas, as acampadas, enquanto processos de comunidades urbanas livres, parecem complexas ou mesmo simplórias demais, esvaziadas de sentido. Contudo, a transformação está em curso – mesmo aqueles que vivem um imaginário publicitaria e autoritariamente fabricado já o notam! O que resultará das acampadas no mundo inteiro? Não sabemos, óbvio. E que bom! Mas estamos realizando a mudança, como sempre se fez ao longo da História.

Mas cabe respondermos uma vez mais aos acusadores de utopia: o caso é muito simples – ou é a utopia ou a morte e as guerras tal como as preparam os métodos de pensamento político caducos.

Enquanto a conhecer os métodos e os eixos diretivos, isto é, os caminhos concretos que possam nos aproximar de semelhante concepção transformadora dos modelos sociais, políticos e econômicos, não nos parece o mais fundamental agora: mais importante é admitir com base na análise simples e honesta que não podemos esperar muito dos governos atuais – mesmo considerando os diferentes momentos de cada país – porque tais governos vivem e atuam segundo princípios homicidas. Devemos considerar porém as lutas anteriores e os movimentos históricos de resistência: se os governos não nos representam, governemos NÓS o estado e o façamos instrumento dos anseios populares e do sentido comum do conjunto da sociedade – sentido que foi sequestrado desde as esferas municipais até os organismos políticos mundiais.

O mundo, portanto, pode escolher hoje entre o pensamento político anacrônico e o pensamento utópico. O pensamento político anacrônico está a ponto de destruir o mundo de várias maneiras, todos sabemos, ignorando aqui os sintomas sociais que nos causam desgraças cotidianas, sobretudo nas periferias. Por desconfiados que sejamos (e eu o sou bastante), o nosso realismo político nos força, pois, a considerarmos vivamente esta utopia relativa. Quando esta utopia tomar corpo como tantas outras na História, as pessoas já não imaginarão outra realidade, pois como bem disse o escritor Albert Camus, a História nada mais é do que “o desesperado esforço humano por dar corpo aos mais clarividentes de seus sonhos.”

Do mundo sabemos hoje que já não restam ilhas e que as fronteiras são inúteis. Todos nós sabemos que o novo modelo que buscamos não pode ser somente local, nacional, nem sequer continental, nem oriental ou ocidental: deve ser um modelo de organização social, política e econômica universal. Nenhum problema econômico por mais secundário que pareça, pode solucionar-se – nos tempos atuais – sem uma articulação solidária entre as nações. Hoje em dia a tragédia é coletiva – e as soluções só podem ser coletivas.

Já não é possível esperar (ou reivindicar) somente soluções parciais ou concessões do Poder. O compromisso é com o que vivemos hoje ao passo que os líderes políticos e seus algozes cooptadores corporativos que promovem a guerra, a dominação e a degradação discutem a paz e a economia mundial em seus monótonos diálogos no G-20, reunião patrocinada por grandes bancos e corporações, não é preciso dizer mais.

Questão: quais são hoje os meios para alcançar certa unidade global, para realizar essa revolução em escala internacional que poderia redistribuir melhor os recursos humanos, as matérias primas, os mercados comerciais e as riquezas espirituais?

É evidente para todos que o pensamento político tradiconal, partidário e representativo se encontra cada vez mais superado pelos acontecimentos – e o pensamento anacrônico não é exclusividade brasileira. É muito evidente também os resultados desastrosos da relação entre o pensamento político vigente e a realidade histórica. O mundo, entretanto, tem mudado muito mais rapidamente nos últimos cinquenta anos do que anteriormente o havia feito em duzentos. – Nossas análises da realidade histórica devem levar isso em conta.

O mais importante mesmo é ir às ruas, seja para acampar e discutir ideias e realizar ações diretas e atos de protesto, seja para experienciar novos modos de vivência e interação coletiva. Não visamos os resultados imediatos, mas os processos de construção mútua. As coisas acontecem mesmo é nas ruas – Occupy All Streets!

Em Salvador ainda somos poucos em número, mas em vontade e intensidade somos alguma coisa! No acampamento discutimos como envolver os bairros, como ampliar as ações do movimento, como integrar o @ocupaSalvador com movimentos transformadores que já atuam no cenário social. Enfim, as ideias surgem uma a uma, a prática nascerá do conjunto e da força coletiva.

por fabricio kc

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