O que fazemos nós no dia-a-dia do movimento @ocupaSalvador?

Claro que cada participante do movimento responderá a sua maneira, mas creio que todos concordarão com uma resposta que, penso, nos contempla a todos que ali no acampamento nos reunimos diariamente, faça chuva ou faça sol: estamos a fazer Política!.

É claro que não estamos a seguir cartilhas – até porque as cartilhas passam, a Política é o que fica, o que move e o que transforma o mundo e as pessoas.

Desde o dia 15 de outubro ocupando a Praça dos Indignados, em Ondina, o movimento se aproxima dos primeiros 30 dias de existência, de nascimento – participando de um contexto global de mobilizações e se articulando com outros movimentos Ocupa pelo Brasil. As nossas assembleias diárias livres e abertas à participação de qualquer pessoa, durante todos esses dias, refletiu o anseio comum dos acampados e dos mobilizadores do movimento, e quiçá, de todos os espíritos autenticamente inquietos de nossos dias:

O quê fazer? (alguém dirá que devemos ler Lenin… o problema não está em Lenin, mas no “devemos”…)

Importa começar indicando o que já fizemos até aqui – objetivamente e subjetivamente:

Provocamos e dialogamos com a Universidade, que veio às ruas falar com o movimento; atraímos a atenção e a colaboração de pessoas ligadas a movimentos atuantes em diversas esferas micropolíticas; realizamos ações lúdicas, culturais e artísticas, vivenciando a arte como forte vetor de mobilização, reflexão e provocação politica; fortalecemos laços de convivência e dinâmicas de interação entre diferentes pessoas, através de um processo inédito para todos ali: um acampamento urbano em praça pública; – tudo isso e algo mais de indescritível e incerto, de estimulante e desafiador, sem manter qualquer tipo de ligação com nenhuma entidade, com nenhuma instituição, com nenhuma estrutura, mas apenas a partir do esforço coletivo de pessoas trabalhando colaborativamente, vivenciando juntos os conflitos e semeando juntos as ideias.

Em meio a todas as dificuldades, intensificadas pelas sucessivas chuvas, questões foram se aclarando, eixos foram se fortalecendo, sempre a partir de uma intuição comum e poderosa:

É premente a necessidade de levantar novas pautas sociais, sobretudo a partir de novos processos políticos.

Constituímos ali uma instigante potência crítica que busca questionar quais são os verdadeiros problemas de nossos dias, direcionando os debates para os contextos locais, considerando as realidades brasileiras e o atual quadro político e social de Salvador.

Até que ponto os nossos graves e continuados problemas sociais locais são reflexos dos extravios estruturais dos modelos vigentes de organização política e econômica que se impõem verticalmente a todos nós, desde a cidade, até o país e o mundo?

Temos, parece, mais questões do que respostas – e é precisamente essa a diferença essencial entre os novos movimentos e àqueles que se proclamam mais experientes.

Já que estamos ganhando experiência em lançar questões, lanço uma bem pontual:

Qual a forma correta de atuar politicamente?

Sinto-me tentado a responder que os movimentos que se supõem mais experientes não têm autoridade para nos fornecer qualquer resposta. Nem mesmo a nossa época responde a essa questão.

Curiosamente, por exemplo, o movimento @OcupaSalvador especificamente tem sido alvo de misteriosa atenção de auto-intitulados experientes agentes do pensamento político de contestação. Quase sempre, a crítica se resume à acusação de imaturidade política, sem nenhuma proposta sequer de orientação professoral. É curioso esse interesse, e é bom: quem sabe esse desentendimento, que me parece surgir de um medo de perda de espaços de gente que lutou muito, formou opiniões e teme a confusão, possa – por linhas tortas – aliar a experiência ao novo, o discurso à experimentação, e assim fortalecer os novos movimentos, cujo escopo principal nós partilhamos: realizar transformações sociais e políticas estruturais.

Os críticos, afinal, devem ser os primeiros a não permitirem que a linguagem Política se torne um discurso tão imperativo, tão determinante.

Não, não temos respostas nem cartilhas, mas realizamos ações, discutimos soluções alternativas e vivenciamos nossas imaturidades políticas de forma crítica. Uma coisa, no entanto, é certa, parece, até mesmo para os críticos ainda meio perdidos dos movimentos atuais:

Novos modos de fazer Política começam a germinar, de uma maneira que apenas se anuncia, se agita. Uma Ética política que transcende os parâmetros de nossas representações e ideias políticas modernas e vislumbram, como eu já disse por aí, a ‘infinidade dos possíveis’.

É necessário mudar, logo, é possível mudar. Vamos ocupar a Política, vamos ocupar o futuro Já! Independente de cartilhas, de dogmas e de discursos engessados, mas atentos e tentando compreender a história, as experiências de lutas anteriores e os contextos culturais e sociais do local ao global.

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por fabricio kc

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